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'Carro é minha ferramenta de liberdade'

Vítima de um acidente que o deixou paraplégico, Fernando Fernandes revela o que o carro lhe representa: "minhas pernas"

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Marcelo Monegato
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“Tudo, tudo, tudo. É minha liberdade. Minha independência. Minha forma de chegar onde as pernas chegariam e onde a cadeira não chega”. Assim, Fernando Fernandes, um dos principais atletas de esportes outdoor do Brasil na atualidade, definiu a importância do carro na sua vida durante entrevista exclusiva ao WM1, em sua residência em São Paulo.

De maneira descontraída, natural e extremamente consciente, o tetracampeão Mundial de Paracanoagem de 37 anos apresentou uma visão completamente diferente e extremamente madura da máquina que hoje é considerada por muitos como o ‘Cigarro do Século XXI’ ou ‘Mal do Século XXI’. “O problema não são os carros, mas a maneira como são utilizados pelas pessoas”, pontuou logo no início do bate-papo. “Se é o mal do século, quero este mal pra mim, É minha ferramenta de liberdade” completou.

Em julho de 2009, Fernando, então no auge de sua carreira como modelo, sofreu um grave acidente enquanto voltava de uma partida de futebol. Cansado, dormiu e bateu o carro que dirigia. No momento, ele não utilizava cinto de segurança. Desde então, Fernando tem buscado a excelência no mundo dos esportes movidos a adrenalina.

E apesar de sua mobilidade ter sido seriamente prejudicada dentro de um carro, em um acidente automobilístico, Fernando tem total consciência de quem foi a culpa. “A imprudência foi minha. Quem não estava de cinto era eu. Independente da condição que passei, o imprudente foi eu”, disse atleta, rechaçando qualquer tipo de mágoa com os automóveis. “Nenhuma. Como é que eu vou ter mágoa de quem eu tratei mal?”

Fernando reconhece que mudou depois do acidente. Se diz uma pessoa mais consciente das questões que envolvem segurança. “Essa imprudência do cinto, por exemplo, não peco de jeito nenhum. E quando você vai se tornando atleta outdoor, vai entendendo ainda mais as questões de segurança, pois as coisas podem sair do controle a qualquer momento e, às vezes, a culpa não é sua. As vezes alguém que está com o carro desgovernado bate no seu”, pontuou.

 Fernando Fernandes
Legenda: Fernando Fernandes
Crédito: Divulgação

Também se tornou mais observador ao volante. Ao falar sobre segurança, Fernando levanta uma questão pertinente e muito atual, que é a falta de atenção dos motoristas que hoje, de maneira completamente irresponsável, gravam vídeos de seus smartphones enquanto estão ao volante, multiplicando sensivelmente as chances de um acidente. “Precisamos nos enquadrar nas regras e nas leis, mas principalmente entender que segurança, como usar um cinto de segurança, é para nós mesmo”.

LIBERDADE

Durante toda a entrevista, Fernando Fernandes mostrou não ter uma relação de dependência com o carro, mas de parceria. Como ele mesmo definiu, o automóvel está “em todos os processos” pelo quais sua vida passou e vem passando. Como no processo de aprendizagem do kitesurf, sua atual paixão nos esportes outdoor. “Quando fui aprender a andar de kite, eu só ia, não conseguia voltar (subir de volta contra o vento). Então eu chegava lá em baixo, o pessoal pegava o meu carro, me ‘jogava’ no porta-malas e eu ‘tau’, descia de novo”, lembrou.

Fernando é proprietário de um Mitsubishi Outlander automático adaptado, que o permite acelerar e frear a mão esquerda, a partir de uma barra leve e muito confortável. “Para se ter uma ideia, as vezes saio de São Paulo e vou até Salvador dirigindo. 2.200 km. São dois dias de estrada que eu faço tranquilamente”.

Aliás, o carro e as longas distâncias têm proporcionado momentos marcantes para Fernando. Um deles foi na travessia do Salar de Uyuni, na Bolívia. “Que incrível. Eu fui pedalar, mas para chegar até lá precisávamos de um carro. E logo no primeiro momento que eu estive lá, que entrei no Salar, eu tava com o carro. E eu disse: ‘Para, para, para! Quero sentir.’ Então desci, peguei aquele sal... Sensacional”.

No entanto, das trips mais incríveis, a ida ao Xingu é que faz brilhar os olhos do esportista movido a desafios. “Eu saí de Cuiabá, só que me falaram: ‘são 600 km, mas são 14 horas’. Eu pensei: ‘Não. Não são. Seiscentos quilômetros nunca na vida são 14 horas. Está errado’. Então saí de Cuiabá dirigindo e quando faltavam 200 km era só chão de terra e lama. Foram 200 km que demoraram quase as 14 horas mesmo”, revelou, rindo. “Mas para mim foi fantástico chegar a um lugar que não tem acessibilidade nenhuma. Você está no meio de uma aldeia. De um território indígena enorme”.

Atualmente, o carro é seu companheiro de kitesurf. Por conta de se dedicar ao esporte, Fernando passa boa parte do tempo residindo em Salvador, mas cai para o Ceará para praticar o novo vício. “Chegar ali na Lagoa da Taíba, Lagoa do Jegue. Enfim, um monte de lugar que estou chegando de carro e que não chegaria de jeito nenhum, pois é areia pura”.

CONSELHOS

Além de se dedicar ao kite, Fernando mantém o Instituto Fernando Fernandes Life, que conta com o apoio de algumas empresas e tem como principal objetivo a “não exclusão”, como ele mesmo prefere dizer. E com a ajuda de profissionais renomados, o projeto social ajuda diretamente dezenas de crianças a partir da prática do esporte, mas especificamente da canoagem.

Fernando, no entanto, serve de exemplo para muitas pessoas que passaram ou passam pela mesma situação que encarou há quase 10 anos, e que não conseguem se reerguer. “Eu só cresci como ser humano quando passei a bater de frente com os meus medos. A partir do momento que você vive um negócio desse, perde algo, o medo vai estar presente. Se você nunca enfrentar ele, nunca vai sair do lugar”, afirmou. “Não é todo mundo que age como eu. Tenho dentro de mim esse desafio de pegar meu medo ir para dentro dele”, completou.

E realmente parece que o medo é transformado em combustível para novos desafios quando personagem principal é Fernando Fernandes. Tanto que participar do Rali dos Sertões, uma das provas do automobilismo mundial mais exigentes, está nos planos. Especialmente agora, que está maluco pelos quadriciclos – que ele mesmo os classifica com extensão versátil dos carros – e pelos UTVs. “Aquilo (UTV) é o capeta! Quando andei de passageiro e aquilo voou uns quatro metros de altura e eu não senti, meu Deus! Impressionante. Aí falei: ‘eu aguento encarar um rali’”.

Parece que Fernando Fernandes é imparável. E se tiver um carro por perto, ele pode se tornar impossível!

 

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